Tem gente que fecha os olhos e ainda escuta o galo, o rangido do carro de boi, a reza do terço na sala. Há um tempo que não volta, mas também não vai embora.
Minha infância na roça abre as portas dessa memória e convida o leitor a caminhar por um Brasil de chão batido, cheiro de terra molhada e histórias contadas à luz da lamparina.
O problema é que esse Brasil quase não é mais escrito. A vida rural de antigamente virou lembrança solta em conversa de família, sem nenhum lugar que a guarde. Quem foi criado no campo, ou cresceu ouvindo os pais e avós contarem, sente falta de um livro que fale essa língua sem caricatura e sem saudosismo de encomenda.
Este livro é esse lugar. São 71 causos curtos, de leitura rápida, cada um com seu final inusitado: a barganha que deu errado, o gato no leite, a cobra na bica, o baile, a folia, a benzedura, o cobreiro brabo, a roça de arroz, o feijão de cada dia, a melancia do mutirão. Prosa coloquial, com a fala do vovô e da vovó preservada, caipirismo sem exagero e um humor que aparece quando o leitor menos espera. No fim de cada história há sempre uma pergunta em silêncio, dessas que obrigam a pensar.
Alaor Braz Vieira dos Reis é contista, poeta e jornalista, membro da ARLAO, da Academia de Letras do Brasil e do InBrasCI. Viveu a infância na fazenda e transformou aquele mundo em literatura. Seus causos já são ouvidos às sextas no programa de rádio
Morada no Campo, e a obra passou pelo crivo do Conselho Municipal de Cultura no projeto Escritores Agora Tem Vez. Como escreveu o jornalista Divino Onaldo Silva no prefácio, Alaor não apenas recorda: ele revive.
São 92 páginas para ler de uma sentada ou aos poucos, um causo por noite. Presente certo para pais, avós, tios e amigos que foram criados na roça, e leitura reveladora para quem só conhece esse Brasil de ouvir falar. Vire a primeira página e veja se você não encontra, em algum canto esquecido, um pedaço da sua própria história.